quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Cidade Invisível
Andei sumido, eu sei. Mas o trabalho me consome. No final de semana fiz um bate-volta no Rio de Janeiro para gravar entrevistas. Na verdade fui à Niterói, naquelas praias que ficam bem pra lá de Icaraí. Fiquei surpreso com a vista que se tem do Rio de Janeiro. A cidade estava tomada por uma fina névoa que deixava entrever apenas uma silhueta tênue dos pontos turísticos famosos. É um outro Rio. Meio mágico, insinuado em contornos cinza-azulados. Olhando assim aquele cenário, que parece ter sido construído com tapadeiras, acabo esquecendo a cidade real que ali está. Daquele ponto-de-vista não existe bala perdida, trânsito ou corrupção. Como nas Cidade Invíveis, de Italo Calvino, o ângulo sugere uma outra metrópole, inventada pelos homens para suportar as mazelas perpetradas pela cidade real.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Muito antigo
Adoro filmes antigos. Quero dizer, muito, muito antigos. Esses que estão passando na Cinemateca são contemporâneos do Gabinete do Doutor Caligari, de Robert Wiene (1919) - um clássico indiscutível do expressionismo. São filmes feitos nas primeiras décadas do século XX muito antes do cinema sonoro e, por isso mesmo, de grande riqueza plástica. A maioria das histórias que assisti até agora apresentam elementos trágicos, com heroínas em esgares de desesperos e homens cometendo assassinatos ou suicídios para catarse coletiva da platéia. Também chama a atenção a sensualidade presente em muitas cenas. Mulheres lânguidas se derramam de paixão. Homens se apaixonam perdidamente e (as coisas eram rápidas naquela época!) já propõem casamento. Lascivos calcanhares se insinuam. Mulheres com camisolas enlouquecem o público. Ninfetas fazem um sujeito perder a cabeça. No sábado assisti numa das sessões (com acompanhamento musical ao vivo) o filme A Alma do Cipreste(1921) onde o protagonista se enamora por uma ninfa e, desesperado de paixão, se atira para morrer nas pedras. Eles adoravam este tipo de tragédia. Aliás, no meio deste filme tem uma enxerto de filme pornográfico da época. Segundo o pessoal da Cinemateca, o filme foi enviado assim pela Biblioteca Americana e eles, obviamente, não puderam tirar a cena. E lá ficou.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Jogo dos erros
Ontem estava eu circulando pelas ruas de São Paulo quando paro em um sinal. Quase na minha frente surge um ciclista, daqueles profissionais paramentado com capacete, joelheira, roupa colada. Até aí tudo normal. Mas olhando bem, notei que algo estava faltando. Como em um jogo dos erros, por segundos fiquei tentando descobrir o que ali não estava. Claro: uma perna. Ao ciclista faltava apenas uma perna. Ele pedalava freneticamente com a que restava. Pedalava com mais vigor do que eu, se tivesse três. Com uma perna só, correu solto pelo asfalto e cruzou sinais numa pressa de quem pouco se importa com uma simples perna ausente. Como ele consegue dar aquela voltinha do pedal para cima com uma perna só, eu não entendo. Juro. E lá vai ele, longe, diluído no meio dos carros com uma perna que vale por duas.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Semana louca
Andei ausente por total falta de tempo. O trabalho tomou conta dos meus dias e noites. Neste últimos dias viajei 400 kilômetros para fazer imagens, entrevistei a dona de um hotel e uma atriz global, dirigi uma apresentadora de telejornal, fiz reuniões de briefing, ajudei na montagem de cenografia, enfim, uma semana ensandecida. Que ainda não terminou... Preciso de um boteco urgente!
domingo, 5 de agosto de 2007
Tulípio, o porta-voz dos butequeiros
Conheci o pai do Tulípio em uma festa. Grande criação que circula em livretinhos gratuitos distribuídos em alguns bares de São Paulo. Eduardo, o pai, conta que o personagem nasceu em guardanapos de papel que ele foi acumulando ao longo das jornadas etílicas. Quando a pilha estava quase caindo da mesa, ele chamou um desenhista e juntos deram vida ao porta-voz dos butequeiros. Garçom, baixa mais uma aí enquanto eu termino a conversa com o Tulípio aqui!
DNA do mestre
Assisti O Deserto Vermelho. Mais uma vez o DNA de um mestre está ali presente. A personagem principal, vivida pela enigmática Monica Vitti, é uma mulher atormentada, beirando a esquizofrenia que vaga por uma paisagem opressiva, cercada de máquinas incompreensíveis e ameaçadoras e rodeada pela degradação ambiental. Uma rica metáfora para a desintegração emocional da personagem. O DVD ainda tem uns extras que valem a pena, o que é uma raridade em filmes de arte. Tem uma entrevista com Antonioni e um cinejornal cheio de ironias e rimas engraçadinhas que esculhambam com a grande quantidade de festivais e a profusão de prêmios oferecidos às estrelas do cinema italiano dos anos 60. Vale uma olhada.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Sublime Silêncio
Em homenagem ao mestre Antonioni, peguei ontem na locadora O Eclipse e Deserto Vermelho. O primeiro assisiti ontem mesmo. É puro cinema de imagem. Antonioni faz um contra-ponto entre a incapacidade de se comunicar dos amantes e o facilidade de gritar dos operadores da bolsa. Quanto mais os investidores afundam, mais se grita e gesticula. Uma algazarra quebrada apenas pelo minuto de silêncio da Bolsa de Valores em homenagem a um colega de trabalho que havia morrido. Bem ao contrário dos amantes que quanto mais se envolvem, menos conseguem se expressar. E aquela sequencia de planos finais é simplesmente sublime. Ninguém tem mais coragem de fazer algo assim.
Vejamos Deserto Vermelho agora.
Vejamos Deserto Vermelho agora.
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